Rio de Janeiro, 4 de Dezembro de 2018

Casa França-Brasil e Secretaria Estadual da Cultura censuram instalação crítica ao presidente

O diretor da Casa França-Brasil, Jesus Chediak, e o secretário estadual da Cultura, Leandro Monteiro, decidem proibir o áudio de uma instalação da mostra ‘Literatura Exposta’ que exibia falas do presidente Jair Bolsonaro

Exposição "Literatura Exposta" (Foto Folhapress/Barbara Dias)

O diretor da Casa França-Brasil, Jesus Chediak, e o secretário estadual da Cultura, Leandro Monteiro, decidem proibir o áudio de uma instalação da mostra ‘Literatura Exposta’ que exibia falas do presidente Jair Bolsonaro [1]. A obra ‘A voz do ralo é a voz de Deus’, criada pelo coletivo ‘És uma Maluca’, é composta por 6 mil baratas de plástico em torno de um bueiro, do qual saem trechos de discursos do presidente [2]. A instalação teve por inspiração o conto ‘Baratária’, do escritor Rodrigo Santos, que fala sobre uma mulher torturada com baratas durante a ditadura militar [3]. Chediak diz que não há interesse em ‘envolver um presidente eleito, que ainda não tomou posse’, que o ‘artista é dono de sua obra, mas nós temos a responsabilidade pelo espaço público’ e que não irá permitir a execução da instalação, pois ‘o presidente foi eleito pela maioria dos brasileiros e merece respeito’ [4]. Ele revela que se sentiu traído pela curadoria da mostra, pois não foi informado sobre o conteúdo dos áudios [5]. Monteiro declara que não considera o acontecimento como censura e que deve preservar a imagem do presidente eleito dentro do equipamento público [6]. O curador da mostra, Álvaro Figueiredo, informa que o áudio será trocado, pois ‘tem toda uma questão jurídica de direitos autorais que não conhecemos bem. Não vale a pena correr o risco’ [7]. O coletivo substitui os discursos de Bolsonaro por um áudio com uma receita de bolo, em alusão a estratégia utilizada pelo Jornal da Tarde na época da ditadura militar para demonstrar quais conteúdos haviam sido censurados [8]. Em nota, o coletivo afirma que a decisão das autoridades consiste em censura e defendem que todos os áudios são publicamente conhecidos e veiculados nas mídias sociais e que as manifestações artísticas ‘são espaços de reflexão’ e ‘exploração de diversidades’ de pensar [9]. Rodrigo Santos também considera o caso como censura e declara que a ‘produção artística passa por várias camadas e nenhuma delas pode ser proibitiva. Você pode não gostar, mas você não pode proibir’ [10]. No mês seguinte, o governador do Rio de Janeiro determina o encerramento da exposição ‘Literatura Exposta’ por causa de peça de teatro com cenas de nudez [11]. No mesmo ano, a Prefeitura de Guarulhos retira fotos de exposição que continham críticas a Bolsonaro [12] e, em 2021, a Justiça determina a retirada de painéis de exposição ‘Democracia em Disputa’ que continham fotos de momentos históricos do país [13].

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