Rio de Janeiro, 11 de Maio de 2022

Policiais civis derrubam memorial às vítimas da chacina do Jacarezinho

De acordo com a corporação, a homenagem fazia apologia ao tráfico de drogas, não foi autorizada pela Prefeitura e não teve o consentimento da família do policial morto.

Policiais civis da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) usam marretas e um carro blindado (‘caveirão’) para destruir memorial inaugurado na semana anterior no Jacarezinho, zona norte da cidade do Rio de Janeiro, que homenageava os 28 mortos na operação policial mais letal da história da cidade, ocorrida em 6 de maio de 2021 [1]. O memorial consistia em placas com os nomes dos falecidos – 27 moradores da região e 1 agente da polícia – e continha o escrito: ‘homenagem às vítimas da chacina do Jacarezinho! […] vítimas da política genocida e racista do estado do Rio de Janeiro, que faz do jacarezinho uma praça de guerra, para combater um mercado varejista de drogas que nunca vai deixar de existir. Nenhuma morte deve ser esquecida. Nenhuma chacina deve ser normalizada.’ [2]. Em nota, a polícia afirma que o memorial fazia ‘apologia ao tráfico de drogas, uma vez que os 27 mortos tinham passagens pela polícia e envolvimento comprovado com atividades criminosas’ e não era autorizado pela Prefeitura [3]. Além disso, argumenta que a família do policial morto não consentiu com a homenagem que incluía seu nome [4]. O Observatório da Cidade Integra, conjunto de organizações que produz dados sobre violações de direitos humanos na favela do Jacarezinho e responsável pela construção do memorial, afirma que ‘a violência não pode ser o único caminho para o estado se fazer presente nas favelas’ [5]. Para organização de associações de favelas, não houve ‘apologia a nada, pois há liberdade de expressão’ [6]. Advogado de familiares de 14 mortos na operação diz que a demolição do memorial é uma ‘barbárie’ e mais uma violência contra os moradores Jacarezinho [7]. Vale lembrar que, em 2019, operação policial em São Paulo matou nove jovens em baile funk [8], durante 2020 e 2021, houve diversos caos de abordagens policiais e criminalização de rappers, funkeiros e grafiteiros [9] e, ainda em 2021, a Polícia Militar invadiu ONG que promove aulas de balé, teatro e lutas durante ação policial [10].

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Análises sobre o caso

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